Sábado, Novembro 21, 2009

Pequenos trechos da minha memória


Falar de si é a coisa mais complicada que há. O sujeito precisa reunir forças, juntar a si mesmo do chão quando lhe perguntam: e o que tu sente? Lembro-me da primeira vez que fui a uma sessão de análise, eu tinha 16 anos. Tinha emagrecido muito, muito mesmo, ficava pelos cantos da casa, no meu quarto. Tinha boas notas da escola. Preocupante. Levaram-me. Fui. A sala era bonita, tinha umas persianas japonesas de bambu e uma poltrona ernorme. Marrom. Eu me senti mais magra ainda sentada lá. Não tinha o que falar. Disse-me a analista: fala Gabriela. Diz o que precisa dizer. Eu respondi: gosto de ficar quieta no meu quarto, gosto do silêncio e gosto de não ter que estar aqui falando contigo. Ela me respondeu: já é um começo. Da segunda vez eu chorei, chorei como se algo muito grave tivesse me acontecido. A terceira e penúltima eu disse: quero fazer faculdade para ser arquiteta, mas eu gosto mesmo é de literatura .Ela me disse: é preciso saber o que se quer. Na última, eu apenas agradeci e nunca mais voltei.Passo todos os dias na frente do prédio onde fica o consultório da analista. Numa tarde dessas ela estava lá, na porta, acho que esperando um táxi. Queria ter parado e dito: Obrigada. Eu sei que quero. E eu escolhi a literatura. Sempre.

Usei aparelho nos dentes por 4 anos. Como doía, meu Deus. Eu não comia, dormia com dor e falava pouco por que falar também doía.Quando tirei o aparelho, a dentista me disse: agora já podes sorrir. E obedeci: sorria até para as árvores, carros, postes... Era quase uma obrigação.Quando cheguei feliz a um amigo, ele me disse: tens algo diferente. Eu falei: tirei o aparelho, estou sorrindo agora! Respondeu-me: sempre foste uma garota sorridente. Só não sabias o valor do teu sorriso. Não parei mais de sorrir.
beijos literários

2 comentários:

Isa Bey disse...

Amiga querida, estive aqui. Li o teu "desabafo" psicanalítico. Talvez tenhas que escrever ao analista ao invés de falar. Que tal?
Escreves muito bem e és uma pessoa pra lá de especial. Beijo bem grandão.

srtaParker disse...

ôô flor! fala assim não, que me derreto toda! só sou assim, por que tenho esses amigos que nem tu...queridões! beijocas